Posts Categorizados ‘Tarso – Caminho das Indias

22
jun
09

Esquizofrenia e a Não-Violência

Do_we_REALLY_need_WAR__by_KeswickPinhead

Pessoal

 

Nesta semana a trama da novela ficou mais intensa e Tarso cometeu um ato de desespero, e violência, ao atirar em Murilo. Recebi vários comentários aqui no blog sobre como isso pode prejudicar a imagem que a sociedade tem do portador de transtorno mental.

A novela explora esse tema para desmistificar estereótipos e não reforça-los. Vamos ter paciência e continuar acompanhando a novela porque Glória com certeza sabe o que esta fazendo.

Aproveitando o momento, gostaria de abrir aqui esse tópico para discussão sobre como os pacientes de transtornos mentais lidam com a violência.

Li em algum lugar na internet, por favor alguem me corrija se eu estiver errado, que enquanto na população em geral atos de extrema violência chegam a 12%, entre os esquizofrênicos esse índice alcança apenas 2%. Acho que essa informação já diz tudo.

O que vocês pensam sobre o assunto? Qual a experiência de vocês com essa questão?

Beijo

Bruno

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24
abr
09

obrigado

oi todo mundo!

fiquei muito feliz e honrado com a participação de vocês todos aqui no blog. muito mesmo.

os depoimentos de vocês me ajudam muito a entender cada vez mais do assunto e a fazer um tarso cada vez melhor.

tenho certeza também que essa troca de mensagens entre todos os leitores do blog acaba por fazer com que a gente ajude uns aos outros. é bom saber que não estamos sozinhos.

é um assunto que mexe muito com sentimento e com emoção, então vamos procurar não só escrever as mensagens com o coração, mas também ler as mensagens, assim como o artigo de Ferreira Gullar, com o coração, e procurar entender tudo que passa na vida, na cabeça e na alma de pessoas que de uma forma ou de outra, convivem com essa realidade.

gostaria de poder responder a cada um de vocês, pois leio todas as mensagens assim que chegam, mas o ritmo das gravações está muito intenso sempre.

vocês estão me ajudando muito!

obrigado

bruno

15
abr
09

lei errada?

ferreira gullar é um dos maiores intelectuais do país, já foi indicado ao nobel de literatura, e dentre muitas coisas escreveu a biografia de nise da silveira e fez uma tradução maravilhosa do livro de antonin artaud que eu sempre indico: Van Gogh, O suicidado da Sociedade.

ele escreve semanalmente na folha de são paulo, e sua última coluna foi dedicada a um assunto que diz respeito ao tratamento de pacientes psiquiatricos no brasil. o artigo esta copiado abaixo, e eu queria muito saber a opinião de vocês sobre o tema!

FERREIRA GULLAR

Uma lei errada


Campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia

ACAMPANHA contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.
Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão “burguesa” para defender os valores do capitalismo.

A classe média, em geral, sempre aberta a ideias “avançadas” ou “libertárias”, quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.

Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que “as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles”. E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: “Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu”.

Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra “manicômio”, já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou “solitárias” para segregar o “doente furioso”. Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.

Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental. Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.

Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.

Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de “repressão burguesa”, resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.

É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.

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