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04
jun
09

Arte e Loucura

bispo

“Por vezes à noite há um rosto

Que nos olha do fundo de um espelho.

E a arte deve ser como esse espelho

Que nos mostra o nosso próprio rosto”

Jorge Luis Borges

.

A maioria dos grandes artistas da humanidade em algum momento foram tidos como portadores de algum tipo de transtorno mental, seja esquizofrenia, bipolaridade ou mesmo depressão.

O que faz essa ligação tão forte entre a Arte e a “Loucura”? A arte é causa ou consequência? É a cura ou estimulo? É um produto ou um reflexo do transtorno?

Ano passado foi muito importante para mim, porque conseguimos realizar um dos projetos mais importantes de minha vida: o espetáculo “Um Certo Van Gogh”. O texto da peça de alguma forma desmistifica o possível transtorno mental do personagem, e foca mais no sentimento de inadequação. Um sentimento muito comum para portadores de transtornos mentais, mas de forma alguma privilégio só deles. Aqui abaixo um texto que escrevi para apresentação da peça, que explica melhor o que quero dizer.

brunovangoghsn9

” Quem nunca se sentiu um pouco como Vincent? Não louco, mas enlouquecido. Não fracassado, mas incompreendido. Não sozinho, simplesmente inadequado. Como manter a lucidez e a determinação contra toda uma sociedade que não é capaz de te compreender? E pior, que te obriga a ser outra coisa?

Van Gogh nunca se rendeu.

Uma luta contra tudo e contra todos. A convicção mais forte do que qualquer outra coisa. A sociedade tentou enlouquecê-lo, e em alguns momentos conseguiu. Mas se nas artes os fins justificam os meios, Vincent venceu.

Van Gogh está em todos que um dia ja se sentiram inadequados. Forçados pela sociedade a fazer algo. Forçados a se transformar em algo que não são. Fernando Pessoa disse que o coração, se pensasse, pararia. E Vincent, só coração, não parou nem por um segundo. Ou talvez só no último segundo – quando pensou.

Há muitos Vincents Van Goghs espalhados pelo mundo, e é para eles que dedico este espetáculo. “

Esse post começa com uma frase do escritor argentino Jorge Luis Borges e uma foto do nosso Antonio Bispo do Rosário, portador de Transtornos Mentais. Em comum: – a arte.

Gostaria muito da opinião de vocês sobre a relação entre a arte e os transtornos mentais, e o papel que a arte pode ter na vida de todos que de alguma forma já se sentiram inadequados ou excluídos da lógica do nosso mundo.

Obrigado

Bruno

.

quem nunca se sentiu um pouco como vincent? não louco, mas enlouquecido. não fracassado, mas incompreendido. não sozinho, simplesmente inadequado. como manter a lucidez e a determinação contra toda uma sociedade que não é capaz de te compreender? e pior, que te obriga a ser outra coisa?
van gogh nunca se rendeu.
uma luta contra tudo e contra todos. a convicção mais forte do que qualquer outra coisa. a sociedade tentou enlouquecê-lo, e em alguns momentos conseguiu. mas se nas artes os fins justificam os meios, vincent venceu.
van gogh está em todos que um dia ja se sentiram inadequados. forçados pela sociedade a fazer algo. forçados a se transformar em algo que não são. fernando pessoa disse que o coração, se pensasse, pararia. e vincent, só coração, não parou nem por um segundo. ou talvez só no último segundo – quando pensou.
há muitos vincents van goghs espalhados pelo mundo, e é para eles que dedico este espetáculo.
15
abr
09

lei errada?

ferreira gullar é um dos maiores intelectuais do país, já foi indicado ao nobel de literatura, e dentre muitas coisas escreveu a biografia de nise da silveira e fez uma tradução maravilhosa do livro de antonin artaud que eu sempre indico: Van Gogh, O suicidado da Sociedade.

ele escreve semanalmente na folha de são paulo, e sua última coluna foi dedicada a um assunto que diz respeito ao tratamento de pacientes psiquiatricos no brasil. o artigo esta copiado abaixo, e eu queria muito saber a opinião de vocês sobre o tema!

FERREIRA GULLAR

Uma lei errada


Campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia

ACAMPANHA contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.
Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão “burguesa” para defender os valores do capitalismo.

A classe média, em geral, sempre aberta a ideias “avançadas” ou “libertárias”, quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.

Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que “as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles”. E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: “Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu”.

Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra “manicômio”, já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou “solitárias” para segregar o “doente furioso”. Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.

Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental. Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.

Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.

Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de “repressão burguesa”, resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.

É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.

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